O zero e o infinito é um daqueles livros que te faz pensar:
o que é próprio do ser humano e o que faz parte de sua época? Realmente o ser
humano é livre para fazer suas escolhas e até que ponto é influenciado por um
sistema, uma ordem social e por instituições, qual sua contribuição individual
no “rumo” da História?
O livro foi escrito pelo jornalista Arthur Koestler em 1941,
apresenta um relato ficcional, da vida de Rubachov, a narrativa se passa num
país inexistente, dominado por um Partido (alusão ao partido comunista) cujo
líder mor era chamado de “nº1.”. Rubachov é um preso político que aguarda
julgamento. Este senhor de cavanhaque e pince-net é nada mais nada menos que um
ex-integrante do Partido, um bolchevique que foi acusado de traidor. O que
torna o livro tão importante a ponto de ser comparado a livros como a Revolução
dos Bichos, Admirável Mundo Novo e 1984 é o fato de ter sido escrito num
momento propício, no “olho do furacão”. Após ser capturado por fascistas e ser
condenado à morte, o autor do livro é solto, através de um pedido da
Inglaterra. Logo em seguida estoura a segunda Guerra Mundial, o livro faz uma
alusão clara aos expurgos e intransigências Stalinistas, mostra que haveria uma
distinção em voga entre dois sistemas, duas “atitudes em conflito”, a primeira
a marxista, que subordinaria os fins aos meios, que o fim mais almejado em
relação ao individuo é sua subordinação total ao Estado. Na segunda atitude o
individuo teria uma “importância suprema”, daí o nome da tradução do livro aqui
no Brasil ser O zero e o infinito.
Na prisão antes de esperar seu desfecho final, que
provavelmente seria a morte, Rubachov vai lembrando-se de tudo que viveu e realizou
pelo partido, todas as “maldades” que realizou, pensando que os fins
justificavam os meios, estava seguindo o rumo da História, o Partido estava
absolutamente certo e sua tarefa era somente segui-lo. Rubachov agora não
passava de um preso político que andava freneticamente de um lado a outro da
cela, atordoado por suas lembranças que o fazem se enxergar como um zero no
infinito.
Em uma passagem interessante, Rubachov se lembra da vez na
qual deserdou um dos integrantes do Partido porque este não distribuiu em sua
cidade o material panfletário, alegando estar errado, isto para Rubachov se
tratava de derrotismo e traição ao Partido. Para Rubachov “O Partido nunca pode
errar. Eu e o camarada podemos cometer um erro. O Partido não. O Partido,
camarada, é mais do que você e eu e milhares de outros como você e eu. O
Partido é a corporificação da ideia revolucionária da História. A História não
conhece escrúpulos nem vacilações. Inerte e infalível ela marcha para seu alvo.
[...] A História conhece seu caminho. Não erra. QUEM NÃO TEM FÉ ABSOLUTA NA
HISTÓRIA NÃO PERTENCE ÀS FILEIRAS DO PARTIDO”. Sendo assim o autor do livro enxerga que a
filosofia marxista engessaria as pessoas e que os fins justificariam os meios.
O mais interessante de tudo é que a Guerra Fria ainda estava por acontecer o
que torna O Zero e o Infinito um livro que vai retratar um longo futuro entre
os dois blocos, digamos assim. Para, além disso, vai mostrar a relação do
personagem principal no reconhecimento do seu EU, através de seu contato com os
outros presos, com a dor, a fome, a morte e seu principal pesadelo: o passado e
sua consciência pesada por tudo que fez.
KOESTLER, Arthur. O zero e o infinito.
Editora Globo, 1964.
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